Vó Dulce “A emoção toma conta do seu coração”

Vó Dulce

“A emoção toma conta do seu coração”

 

OEUDV TEMA 2015 – CIDADANIA: “Compartilhando Memórias” Conhecendo as histórias de vida do nosso povo – OE

Núcleo São Joaquim – Campo Grande/ MS – 13ª Região

 

 

1º Perguntatório: DULCE GOMES DO SANTOS (CI) 90 ANOS

 

Data: 23/05/2015 (4º sábado do mês de maio)

Perguntadores: 11 Crianças de 02 a 11 anos / 10 Jovens.

Demais Expectadores: 13 Adultos.

Horário: Período da tarde (16h00 às 17h00)

Local: Residência da Entrevistada

 

Equipe de Trabalho: C. Adriana, C. Fernando, CI. Rita de Cássia, CI. Meije, QS Adriana (equipe de organização); Jovem Bianca (Responsável pela Filmagem); Jovem Natália (Responsável pelo Registro Fotográfico), Jovem Gustavo (Responsável pela elaboração do texto)

 

Tivemos também a colaboração de pais voluntários para abrilhantar o cenário com coisas da antiguidade que fazia parte da vida da entrevistada que já não possui mais como: moinho de café, ferro de passar roupas movido a brasa etc.

 

 

No dia 23 de maio iniciamos o dia, belo e ensolarado, com grande ânimo e alegria o movimento para realizar o 1º Perguntatório com crianças e Jovens da UDV (Biografia “Compartilhando Memórias”) já pensando em deixar o cenário bem bonito e confortável pra receber nossa tão esperada entrevistada, tão esperada porque Vovó Dulce do Corpo Instrutivo do Núcleo São Joaquim se encontra com a saúde debilitada e tivemos que aguardar o momento oportuno pra realizar a atividade. Nos mobilizamos para organizar em seus respectivos lugares: os objetos, fotografias, algumas publicações e mensagens positivas, considerando o gosto da entrevistada por escrever palavras positivas e de boas orientações, bem como cartazes retratando passo a passo de sua vida a exemplo da árvore pra se imaginar perguntas.

 

Para que ocorresse dentro de uma harmonia, oportunizamos a todas as crianças e jovens para que pudessem perguntar uma colher de pau “bastão da vez” o que facilitou o trabalho. Também foi feito uma atividade com as crianças durante a sessão de escala do terceiro sábado (16) onde já pensando no dia da entrevista, elaboraram perguntas que gostariam de fazer, desta forma providenciamos uma caixinha com as perguntas, mas nem foi preciso utilizá-la, pois foi bem dinâmica, sem muito tempo de pausa entre uma pergunta e outra.

 

Na seqüência segue texto elaborado pelo jovem Gustavo Bernardino 22 anos, sócio do Núcleo São Joaquim que de bom grado se colocou a disposição pra auxiliar neste tão valioso trabalho, assim como alguns jovens convidados dos Núcleos Senhora Santana e Luz de Maria que abrilhantaram ainda mais o dia, todos auxiliando com anotações, perguntas, demonstrando amor e consideração. Foi muito bonito também ver os pequenos tão interessados em querer conhecer a história de vida da vovó Dulce.

 

Gratidão pela oportunidade que este belíssimo trabalho nos trouxe possibilitando conhecer a história da nossa gente e aprender com a experiência de vida destas pessoas que tem um tanto pra ensinar.

 

Adriana Aparecida dos Santos Ferrer

coordenação

 

 

 

 

Para a Vó Dulce

 

Eis que se reúnem na rua Crocoió, em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, algumas dezenas de jovens, crianças e adultos. Diversas gerações, Nascidos entre os 50 até a década de 2000, todos ali com um propósito em comum: silenciar as projeções do futuro, para ouvir um pouco da voz do passado, ouvir uma Senhora conhecida como vó Dulce, já na idade avançada de noventa anos e no grau de bisavó.

Desde o início do dia, a família da Vó Dulce já se dedica a fazer as preparações para a nossa tarde. São fotos antigas em preto e branco espalhadas pelo quintal, contando em imagens a cadência do tempo. Uma máquina de costura Singer de porte rústico e madeira embotada pelos anos. Coleções de livros antigos e artefatos não mais produzidos.

Aguardamos o momento da chegada da nossa entrevistada. Ela vem andando de dentro da casa para o quintal, lentamente, passo por passo fechando a distância entre nós. Ela vem acompanhada pela filha, Dona Neide. Seu neto Fernando Ferrer começa a entoar no violão a canção “é preciso saber viver”, de Roberto Carlos. As bisnetas Natália e Bianca Ferrer começam a puxar o coro… Uma família de dois filhos, quatro netos e dez bisnetos manifestam seu respeito pelos 90 anos de chão percorrido e a recebem em cantoria unificada, e o que se segue não é apenas uma entrevista, mas uma tarde conduzida em forma de oração.

Assim, quando Vó Dulce acomoda-se em sua poltrona as crianças sentam-se num círculo em volta de seus pés e se preparam para perguntar sobre histórias, causos e formas de se viver soterradas pelo tempo. Por um momento o futuro da humanidade, aquelas crianças, mesmo que uma pequena amostra, se viram de frente para o passado, e uma interação intertemporal se inicia. Ao mesmo tempo, tudo está ali no presente, assentado na palavra viva.

A Vó Dulce olha para todos ali presentes e percebe-se que a emoção começa a transbordar pelos seus olhos enquanto fala de passagens da sua vida, histórias das quais podemos aprender e tirar lições, mas nunca abarcar por completo. Só ela quem sabe de seus noventa anos que correram como um rio em direção ao mar, e se sedimentaram nas rugas e na voz carregada de experiência e mansidão. Mas ali estamos nós em busca de assimilar o que nos é dito.

Dulce nasceu na Vila Bom Jesus, no estado da Bahia. A vila virou cidade de nome Piatã. Fica próximo da Chapada Diamantina e teve um grande desenvolvimento, resultado das plantações de café. A pele branca demonstra a ascendência de trabalhadores europeus. Seu local de nascimento, quando ainda Vila, consistia num pequeno povoado, onde o avô de Vó Dulce possuiu riqueza material e era conhecido, mas, mesmo assim, as condições materiais eram muito limitadas e circunscritas ao mundo rural. Durante o dia havia o trabalho nas lavouras e à noite a casa era iluminada à lamparina com óleo de mamona, uma luz tênue perdurava por toda a noite, mas todos dormiam cedo e acordavam cedo.

Uma das crianças indagou: “Qual era sua comida favorita?” Ao que Vó Dulce responde com um pouco de humor:

– Comida favorita? Não tinha isso não. A gente comia o que tinha, o que punham pra gente comer. A mãe punha um pouco no prato e, se reclamasse que não tinha gostado, ela punha mais ainda, e fazia comer tudo.

 

Através de seu discurso, é fácil notar a autoridade que tinham os pais naquela época, maior do que se observa hoje. Para Vó Dulce a autoridade se fazia natural pois os filhos sempre sabiam menos do que os pais, hoje, com televisão, internet e a revolução da informação, os filhos estão mais propensos a desrespeitar os pais devido às coisas que aprendem por esses meios, propagadores das verdades do mundo. E ela admite que, muitas vezes, os filhos realmente sabem mais que os pais. A sua filha, Dona Neide, de 65 anos, interpela rapidamente:

– Ou acham que sabem…

Perguntou também uma criança, qual faculdade ela fizera. Ela deu uma risada e explicou como esse tipo de coisa era limitado para as pessoas de sua época, ainda mais quando se era mulher. Ela mesma teve dificuldades com o pai, justamente por não vir ao mundo na condição de primogênito homem. As condições para as mulheres eram duras. A Vó Dulce conseguiu trabalhar em uma farmácia devido ao ofício de farmacêutico do marido, e também desenvolveu o trabalho de parteira. Sua mãe, no entanto, considerada a mulher mais bonita da cidade, foi escolhida por seu pai, que, pelo ciúme perante à beleza da jovem, não a deixou nunca ser educada e desenvolver nenhuma potencialidade.

Além do mais, Vó Dulce casou-se bem cedo, ainda em idade tenra, entrando na adolescência. Com seus 16 anos uniu-se com o senhor Udelson, que era sete anos mais velho. Naquela época casamento, noivado e namoro também era algo muito diferente. As regras e tradições eram imperativas, os limites bem demarcados, os papéis de cada um bem definidos. A honra da moça era defendida. A honra do rapaz era provada. Acreditem ou não, ainda utilizavam esta palavra hoje esquecida, honra.

Uma jovem toma a coragem necessária e pergunta algo que já estava pairando no ar: “Vó Dulce, Como que os jovens interagiam? Como os namorados se conheciam naquela época?” Ao que a Bisa replicou prontamente:

– Não se conheciam, minha filha. Começava-se o namoro e chegava um ponto em que os pretendentes se viam todos os dias, mas não conversavam, nem eram deixados sozinhos. Eles casavam sem se conhecer.

Ela dá uma breve pausa e o mediador da conversa começa a passar o microfone para outra pergunta, quando ela retoma seu discurso e o completa:

– Homem e mulher não se conheciam para casar, mas dava certo. Hoje passam muito tempo conhecendo tudo um do outro e acaba não dando certo. Antes Deus cuidava.

Meditei nestas palavras. Antes Deus cuidava. Perguntei para ela se eram muito diferentes os valores e o comportamento das famílias de antigamente. Ela explica que havia maior respeito com os pais, mas, quanto às famílias que não se guiam por valores, o que ela poderia fazer era entregar tudo nas mãos de Deus. Ela explica que nas orações não pede nada, mas entrega tudo para o Superior. Aqui deixou a fé ecoando pelo quintal, uma bela lição. Em qualquer tempo que for, há de se saber que Deus está no comando de tudo, e ele sabe do que as famílias necessitam.

Nascida na Vila de Bom Jesus, com o tempo deixou-a para percorrer o chão de São Paulo, Araçatuba. Para chegar ao seu destino, percorreu muitas léguas de caminho, viajando quatro dias a cavalo e cinco dias em um caminhão. Mas, apesar de sair da Vila onde teve início sua jornada, nunca deixou o Bom Jesus. Sempre manteve a fé nele, algo que foi ainda mais fortalecido numa sessão da União do Vegetal, onde ao se confrontar com problemas de saúde ouviu a voz de Jesus afirmando que cuidava dela. E assim, ela se sente segura, entregando tudo nas mãos do Salvador.

Quando veio para Mato Grosso (quando ainda o estado não fora dividido) viveu com sua mãe até se casar. Sofreu com o abandono do pai e com um filho com problemas psicológicos e que se fora cedo, mas com a Dona Neide, sua filha, casado com o Seu Jorge, natural de Barcelona, Espanha, a semente vingou e hoje é uma frondosa árvore de bons frutos, com filhos, netos e bisnetos. Sua maior felicidade é a família que pôde construir. Ao ser indagada pela bisneta Natália se ela se considerava feliz, a Bisa (como é carinhosamente chamada) afirma com toda a certeza:

– Sim, sou feliz. Por que tenho uma família maravilhosa.

A fonte da felicidade desta senhora de fala mansa e sábia está enraizada na família, na prole, na sua linhagem que prossegue. Tudo ali remetia à família, algo que carece de ser lembrado e defendido hoje. O ambiente exalava esta força poderosa e simples, essa matriz da sociedade. Desde o pé de jabuticaba que ali crescera no quintal da casa de Dona Neide, até os raios mornos de sol alumiando pelas brechas da cerca viva, as crianças, o encontro de velhos amigos e aquele aconchego que só as casas de avós proporcionam. Naquele ambiente a história da família se perpetuava bem viva.

Perguntaram pra ela o que ela gostaria de fazer ainda, se pudesse. Ela responde rindo que gostaria de encontrar as paqueras que conhecera na Bahia, nos tempos idos de juventude. Deleitava-se ao pensar na possibilidade, mas, pés no chão, dizia que hoje todos estariam velhos, de qualquer maneira.

Embora alguns creiam que vivamos tempos difíceis, a Vó Dulce nos demonstra leveza e bom humor, contando de sua vontade e das histórias que se passaram, que os bisnetos tanto gostam. Ela nos mostra também que, apesar dos filhos respeitarem menos os pais neste admirável mundo novo, temos uma oportunidade de aprender, de nos desenvolver e adquirir conhecimentos que não eram possíveis anteriormente. Talvez devamos resgatar os valores do passado, abrindo as possibilidades de um mundo melhor, sem nunca perder a consistência dos princípios que sempre nos nortearam.

Por falar em princípios, perguntei qual conselho deixaria para os jovens que estão começando a vida. Ela olha fixamente nos meus olhos e diz:

– Não tenha vergonha de ser bom. Através da humildade podemos ter Deus e a prosperidade.

Noventa anos passados e ainda propaga os ensinamentos do Rei dos reis e Mestre dos mestres, Jesus. Ela nos lembra que a humildade é a coisa mais importante que um ser humano pode ter nesta passagem terrena.

O sol aos poucos vai se pondo distante, e a entrevista vem chegando ao fim. Vó Dulce estava um pouco acanhada com tantas perguntas vindas de todos os lados. Apenas quem presenciou seus momentos mais inspirados em uma sessão da União do Vegetal sabe o quão poderosas e frutíferas são suas palavras.

Eu já presenciei estas sessões, também vi seu aniversário de oitenta anos, e mais tarde o de noventa anos. Sempre tive muita admiração por esta senhora e pelo progresso de toda a sua família, e também pude desenvolver boas amizades com os Ferrer. Encerrou-se a entrevista num sábado calmo, e chega-se ao fim desta prosa, mas continuamos com o desejo profundo e sincero de que a história dessa família para sempre sempre continue, através das intempéries e dos momentos de alegria, com muitas vitórias, paz e amor semeados pelos anos vindouros. Que a luta de Vó Dulce se cristalize na ação de seus descendentes. E viva a esperança de dias melhores para os filhos deste Brasil, os que edificam esta nação e os que ainda estão por vir.

Gustavo Bernardino

22 anos

 

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