PRIMEIRA HISTORIOGRAFIA N. TIUACO- C. Ivonete Marques

*sugiro que assistam o vídeo

DOCES ENSINOS

Por C. Geovana Bonazoni Cardoso

Núcleo Tiuaco, 2º região/ 15 de Agosto de 2015

M. Representante: Moacir Biondo

Colhedores: 19 crianças, de 03 a 11 anos

Jovens: de 12 a 18 anos, 11 jovens presentes

Equipe de Apoio: M. Ney, C. Rosangela, Patrícia Felipe, José Doades, Tânia, Ricardo, Luciano (In memória), Henríque, Sabrina, Úrsula, Diana.

Local: N. Tiuaco

Era uma bela tarde ensolarada, típica da cidade de Manaus. As crianças aguardavam ansiosas.

Os jovens conversavam entre si, trocavam ideias e se preparavam para fazerem as perguntas.

Nós nos organizávamos dando os retoques finais. Cenário ok, luz, câmera e a música escolhida, tudo ok

Aproxima-se a hora marcada. Reunimo-nos com os jovens e acomodamos as crianças.

Num clima de alegria, ali estávamos num cenário simples, com flores “buganviles” enfeitando as paredes, a cadeira para a entrevistada estava posta e uma mezinha cheia de fotos, lembranças…

A ideia era deixar o ambiente alegre e familiar.

E vinha ela caminhando ao som da música: “Abra a porta que eu cheguei, to chegando é pra ficar…” Vinha com um sorriso contagiante, digno de uma celebridade!

Aqui estamos com nossa amiga Ivonete Marques, pessoa de grande valor e que tem tanto a nos ensinar.

Damos inicio a entrevista;

As crianças não se intimidam, logo vão fazendo suas perguntas, e ela carinhosamente respondendo. Os jovens também se manifestam, porém, são mais objetivos.

Logo de inicio é perguntado o dia de seu nascimento (seis de julho de 1937) 78 anos!

 

Quando ela gosta da pergunta, faz questão de responder bem explicadinho. Este gesto aguça ainda mais o desejo de conhecer mais esta simpática senhora.

Quando perguntada qual era a coisa que mais gostava na época de infância, ela responde que era brincar. “A minha brincadeira preferida era pular corda” faz questão de explicar com se brinca de pula corda. E continua a falar de sua infância…

—Sou de uma família de muita gente, sabem quantos filhos minha mãe teve? Vinte dois filhos sendo que morreram dois e se criaram vinte! Eu sou a terceira, então eu tinha muitos companheiros para brincar em casa. Brincava também na rua porque naquele tempo não tinha esse transito com tantos carros, o meio de transporte principal era carroça puxada por burro ou jumento.

Lembra ainda que o jantar saia às cinco da tarde. “Então nós tínhamos de cinco e meia até às sete e meia para brincar na rua que não tinha perigo”.

Uma criança pergunta: Como era sua vida? Ela logo responde:

—Como era minha vida? Boa, “eu fui uma criança feliz, com pai, mãe e muitos irmãos”.

Fala do tempo de escola e de como era:

— Naquela época tínhamos que decorar a tabuada, porque a professora fazia uma sabatina. Se errasse a pergunta da professora, levava uma palmatória. “E tinha mais, a mãe ainda dizia se errar pode bater que é pra ela aprender”.

Uma infância sem “proteção” onde tinha a mãe como sua melhor amiga.

Aproveita o momento para aconselhar. E diz que amiga verdadeira mesmo da gente é a mãe. Porque tudo que ela fala mais tarde podemos confirmar. “Bem que minha mãe falou!”.

A família em fim, a mãe, o pai, os avós são nossos primeiros amigos, depois vem os outros.

E as perguntas continuam…

A senhora já fugiu de casa? Responde que não e explica:

—La em casa era o seguinte, deixa eu te dizer como era: Quando eu já estava com os meus 16 anos, que já gostava de ir pra festa, tinha um negocio que era pior que levar peia. Eu sempre achei pior que peia é levar um castigo. Então minha mãe dizia: “Você esta 30 dias sem poder ir para uma festa e nem para uma pracinha”, porque reunião era passear numa praça. “Não adianta mandar à amiga e nem a mãe da amiga vir me pedir, porque eu vou deixar e você vai dizer que não quer ir”, a situação era esta. Às vezes eu até tentava, pedia para minha amiga ir pedir para minha mãe. E ela respondia: “Ela pode ir eu não impato não, fica a vontade. E me perguntava: “Ivonete você quer sair”? Eu olhava pra minha mãe e respondia: “quero não”, porque eu já sabia como era o negócio.

Neste momento todos rimos…

Entre uma pergunta e outra, falou de como era namorar naquele tempo, conta que era na presença dos pais e no mais tardar até às nove e meia da noite. Contou que foi noiva aos quinze anos de idade. Rindo conta que ela não escolheu.

—O rapaz pediu aos meus pais e eles autorizaram, mas eu não gostava dele, eu, uma jovem e ele com seus trinta e cinco anos, mas aproveitei que ele fez uma viagem e escrevi uma carta e terminei o namoro.

Quando perguntada qual foi sua maior emoção? Responde carinhosamente que foi o nascimento de seus dois filhos.

Falando de política… Uma jovem pergunta se ela pegou a época da ditadura e se sim como foi?

—Foi bom, pra mim foi bom, eu já estava aqui no Amazonas nesta época e foi quando comecei a trabalhar, era funcionaria publica.

 

E a pergunta que não queria calar: Quando a senhora conheceu o mestre Gabriel?

Responde que foi em meados de 1969 e 1970.

Sobrinha do mestre Florêncio, que já conhecia o mestre Gabriel desde os seringais, e que foi a pessoa quem trouxe o vegetal para Manaus, ela conta que juntamente com seus pais, mestre Vicente Marques e conselheira Mariquinha, conheceram mestre Gabriel.

Bebeu o vegetal pela primeira vez em 1969. Bebia o vegetal nas sessões festivas, vindo se associar já nos anos 1990, quando inaugurou o núcleo que tem o nome de seu pai, Mestre Vicente Marques.

Entre tantas “perolas” ela nos conta mais…

É perguntada do que ela sentia falta, que tinha na União aquele tempo que hoje não tem. Responde dizendo que a União é a mesma de antigamente, os ensinos do mestre são os mesmos. O que mudou mesmo são os núcleos, conta que quando começou a União do vegetal em Manaus, bebia se o vegetal no sitio de seu tio Geraldo (o mestre Geraldo de Carvalho) e  neste sitio tinha uma fabrica com nome de Luminasa e beberam por um tempo naquele lugar, depois passaram a beber vegetal na casa de um deles, ou do mestre Florêncio, do Nonato ou de algum dos poucos irmãos que eram.

Até que chegou o dia que decidiram comprar um terreno e fizeram a primeira sede.

Precisava de um nome, pois até então não tinha. “Lembro meu pai dizendo: vai pro mariri hoje”? Eu já sabia que era dia de sessão. Depois chamavam de núcleo de Manaus. Até que um dia na sessão decidiram que tinha que arrumar um nome para o núcleo, o mestre Florêncio disse que já tinha o nome pra dar, seria Caupuri, e foi feita então uma votação, devia ter umas quinze pessoas nesta sessão e assim foi dado o nome do núcleo Caupuri.

Todos ficaram sabendo um tanto mais a respeito das historias de vida dela e também um pouco mais de como foi o inicio da União em Manaus já que fez parte de sua vida.

Foi um grande prazer fazer essa atividade com essa senhora, que demonstrou habilidade ao responder dando enfase, até mesmo a perguntas mais inocentes.

PRIMEIRA HISTORIOGRAFIA N. TIUACO- C. Ivonete Marques

 

obs: não saíram todas as crianças na foto, pois, saíram para brincar rsrs

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

2 Comentários

  1. Foto de perfil de Rosangela Abreu, CDC, Núcleo Tiuaco 2a, Responsável pela orientação espiritual de crianças

    Parabéns a todos que puderam participar desse lindo trabalho, as crianças participaram ativamente com bastante perguntas até mais que os jovens, a C.Geovana conduziu bem desde a abertura até o encerramento da entrevista, deixando tanto as crianças quanto os jovens bem a vontade. Também estava presente entre nós o nosso querido irmão Luciano Maia (in memoriam)e pude confirmar ainda mais a importância desse trabalho, onde poderemos ter gravado alguns relatos da C. Ivonete Marques e imagens das crianças, jovens e adultos presentes nesse dia….abraços.

    Rosângela Abreu

  2. Foto de perfil de Monia Laura Faria Fernandes

    Lindo de ver e ler! Bem interessante saber como foi dado o nome do N Caupuri, historia para a vida!

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