Com um apelido carinhoso, apresentamos Paulo Piu , o cantador!

Com um apelido carinhoso, apresentamos Paulo Piu , o cantador!

Escrito por Cristiane Junqueira – Responsável Nuclear do Rainha das Águas –  3a. Região –  em 18 de junho 2016

Mineiro nascido em Caldas, de origem rural, teve uma infância feliz e muito criativa, sem o poder da tecnologia, fabricava seus brinquedos e criava instrumentos musicais a partir de uma abobora e mamona criando bandinhas musicais e desenvolvendo um fino gosto musical. Uma de suas composições com o músico, adaptação da melodia,  a música mais conhecidas é “ As Manhãs “, que circula muito pelos núcleos da UDV.

 

Em comemoração aos 30 anos do Núcleo Rainha das Águas, O Mestre Representante, convidou o sócio mais antigo do núcleo para contar sua estória de vida e numa tarde bonita de inverno, nos reunimos no salão de preparo do Núcleo Rainha das Águas para realizar o quinto recordatório de nosso núcleo, continuando com o tema “ cidadania “ proposto desde o ano passado pela Orientação Espiritual Nacional. O entrevistado da vez foi nosso mano” antigo de casa “, sócio fundador do núcleo, pertencente ao Corpo Instrutivo, o Paulo Afonso dos Santos Guimarães, mais conhecido como Paulo Piu, pai do Francisco. Mineiro, nascido em Caldas , em 1 de novembro de 1952 , Dia de todos os Santos  . De origem rural , desde criança amante da natureza , criado com o “ pé no chão “ , no meio de crianças simples e criativas , com dons artísticos que o inspiraram desde cedo a se tornar um musicista e violeiro , compositor de músicas bonitas , parceiro e amigo de  músicos conhecidos como  Fernando Guimarães , Dércio Marques , Joao Bá dentre outros artistas regionais . Durante sua entrevista respondeu para as crianças e os irmãos presentes , a origem do sobrenome Dos Santos , do seu apelido Piu , de sua relação com a música e com a  União do Vegetal dentre outras pérolas que nos foi revelada . Uma de suas composições com Fernando Guimarães é “ As Manhas “, uma adaptação , que circula muito pelos núcleos da UDV .

A seguir, relataremos fatos marcantes de sua trajetória de vida.

Infância : amizades , brincadeiras , comemorações de aniversario , escola e família

Infância feliz bem aproveitada no meio caboclo, pois sua família era de origem rural.Convivia com crianças criativas que não tinham o poder da tecnologia e fabricavam seus próprios brinquedos. Desde cedo com dons artísticos, inventavam cantorias,bandinhas, teatrinhos …  Seus amigos preferidos eram crianças pobres e negras, as mais simples e humildes, pois eram mais fáceis de se relacionar. Aprendeu com seus pais a tratar todos com igualdade. Da abóbora, cortavam as extremidades do cabo da folha ea transformava num instrumento parecido com um berrante; da mamona criavam uma flautinha e assim formavam um banda. Gostava de jogar futebol, nadar em ribeirão, vivia com o pé no chão. Suas brincadeiras prediletas eram cowboy (mocinho e bandido),queimada,pique, 21 de abril, essa última até então desconhecida pelas crianças.Passava as férias num distrito rural de Caldas, o bairro de São Pedro, e lá se reunia com outras crianças e todas com dons artísticos, que inventavam piadas, teatrinhos e cantorias e as famílias esperavam ansiosas assistir as apresentações deles. Somente as crianças mais abastadas tinham brinquedos de plásticos como jipinho, caminhãozinho e ele fabricava seus brinquedos com muita criatividade. Do sabugo de milho, cabaças e palitos de fósforos, criava carrinhos de bois. Lembra que até sofria bulling pelas crianças com mais condições financeiras ao brincar com elas e levar seus brinquedos feitos por ele. Lembra-se que guaraná só tomava em festas de casamento e bolo só em ocasiões especiais.

Seu primeiro contato com a escola foi muito difícil, pois lá exigia disciplina e rotina e como se diz ter sido um “ bicho do mato “, daquelas crianças que chegava enlameada em casa, precisou de muita adaptação. Ao responder se era bom aluno, se considerava um aluno mediano, pois com o tempo foi se socializando e gostando muito de aprender e adquirir mais conhecimento principalmente na área de humanas como geografia,história, iniciando assim sua cultura .

Teve uma mãe muito amorosa, trabalhadeira e educava ele e seus dois irmãos com rigidez,disciplina, mas sem perder o carinho. Exigiaum bom comportamento e não gostava nada de entrar sujo em casa, risos …

Sua casa era simples, mas boa e nunca lhe faltou nada, os banhos quentes vinham de um cano do fogão de lenha (serpentina) e lembra com saudades dos banhos de bacia. Sua avó, católica fervorosa, exercia uma grande influência religiosa na família e lhe ensinou a rezar para agradecer o alimento,orar antes de dormir e esses costumes o auxiliaram a se aproximar mais de Deus.

Ao responder sobre uma comida preferida, nos contou que sempre apreciou a comida mineira e até o inspirou a compor uma música muito divertida e ritmada: “  O Sô Beco da Sá Mariquinha “ ,  que conta a estória de um fazendeiro que promovia folia de Reis e servia pão com carne moída , viradinho de frango e cantou para nós um trechinho dessa música gostosa de ouvir :

…  Comi um viradinho

     Entro na sala vou dançar mais um cadinho

    Levo a morena, arrasto o pé

    Eu vou me embora só quando Deus quiser …

Gostava de trabalhar desde cedo e já aos 7 anos, ajudava seu saudoso avô, numantigo bar restaurante famoso de Caldas, o Bar São João e lá fazia o que precisasse , desde serviço de limpeza a vendas . Não precisou trabalhar para ajudar a família, pois os pais eram bem trabalhadores. Começou a trabalhar espontaneamente e “ atrás de um balcão “, pois era seu forte, a área de vendas, pela facilidade em se relacionar com as pessoas.

Adolescência

Respondendo como foi sua adolescência, nos contou que foi marcada por uma fase em que jogou muito futebol, seu esporte preferido. Houve momentos de muita alegria, mas também de angústia, pois o país passava por um momento políticodifícil, havia uma certa “ confusão “ que a ditadura militar impunha. O mundo também passava por muitas transformações, quanto a música,a literatura e comportamento. Sentia um certo isolamento por morar numa cidade de interior e muita coisa só acontecia,mesmo,  nas metrópoles e o acesso a informação era difícil, mas mesmo assim sentia em Caldas todo esse processo de mudanças.

Houve momentos de rebeldia, que não foi bom em determinadas coisas que veio refletir na idade adulta. Essa rebeldia iniciou na época em que frequentava a Igreja católica pois contestava algumas coisas que via na igreja. Veio de uma família muito religiosa e católica que o pressionava a seguir o mesmo caminho. A sociedade também pressionava de vários lados, seja na política, na religião, o que gerava uma angustia, a falta de liberdade. E assim cresceu numa adolescência marcada por uma fase de rebeldia que, lá na frente, já bebendo vegetal, passou a compreender melhor e tranquilizando mais sua maneira de ser e direcionando sua energia para outras coisas.

Origem de seu nome

Uma criança o perguntou porque se chamava Paulo Piu , e explicou que seu nome é Paulo Afonso dos Santos  Guimaraes . Sua mãe era professora primária e gostava muito de ouvir falar da cachoeira de Paulo Afonso e resolveu homenageá-la com esse nome. Nasceu no Dia de Todos os Santos, e como era de uma família muito religiosa, cada neto que nascia, ganhava um nome de um santo e assim ficou Paulo Afonso dos Santos Guimarães. Sobre a origem do seu famoso apelido Piu , nos contou que um amigo que jogava futebol com ele desde pequeno , o apelidou de Pipiu , porque seu rosto era  parecido com de um  passarinho  e sempre que chegava perto dele falava “ Pipiu “ , risos ,  e de Pipiu foi para Piu até ficar conhecido como  Paulo Piu .

Musicalidade

O seu primeiro contato com a música foi através de uma sanfoninha de um garoto de Caldas e sempre que podia ia atrás dele ouvir e aprender a tocar, chegando a ser repreendido pelo pai.

Sua mãe já apreciava a Folia de Reis e a moda de viola e desde cedo gostava de ouvir os violeiros cantar e lembra com saudades de seus tios que tiravam leite da vaca  e cantavam umas modas de viola . Era uma infância que começou a apreciar esses tipos de música e direcionar para uma viola pura. Lembra da infância em que formou uma bandinha utilizando abobora e mamona dentre outros como instrumentos musicais e saia marchando e tocando instrumentos criados por eles.  Gostava muito de junto com amigos também criativos, criar sons com movimentos do corpo e era muito divertido.

Chegada na União do Vegetal

Considera que chegou tarde na União, aos 30 anos de idade, pouco antes da criação do nosso núcleo, em 1984, há quase 34 anos atrás. Recebeu o vegetal pela primeira vez pelo Mestre Mario Piacentini , na casa dos conselheiros Margarete e Eurico Pascoal , em Caldas . Através de um professor de piano de Poços de Caldas, ouviu falar de um grupo de pessoas que bebiam o vegetal em Caldas, para sua grande surpresa. Já sentia sinais fortes que algo muito importante iria acontecer em sua vida desde o tempo que morava em Campinas, quando tocava junto com um grupo musical Chasky , do Conselheiro Guilhermo , sócio do Núcleo Alto das Cordilheiras . Esse grupo tocavamúsica andina, fortemente espiritual e toda vez que ia tocar com aquele grupo, já sentia uma familiaridade. O dia que sentiu mais forte, que algum acontecimento estaria se aproximando, foi quando leu uma reportagem marcante da revista Planeta em que na capa tinha um índio bebendo um chá numa cuia e se sentiu atraído por aquele assunto, pois considerou a reportagem muito sensata sobre o chá, que relatou uma famosa pesquisa que aconteceu no núcleo Sumaúma e até o jornalista bebeu o vegetal. Sentia uma familiaridade com a forma de falar, da harmonia com a natureza que o vegetal proporcionava, pois desde menino era sensível e intuitivo e já sentia uma grande emoção quando estava perto do mato, da natureza.

As burracheiras que o marcaram foram em sessões realizadas na garagem da casa do Marcelo , conselheiro na época , em Poços de Caldas e percebeu o valor da família dentre outros , e as músicas tocadas nas sessões  sempre foi um facilitador . Recorda da música “ Casa do Sol Nascente “ que tocava muito na época trazendo para ele a grandiosidade que é a União do Vegetal . Desde o início sentia na União um lugar seguro. Mesmo com alguns questionamentos, considerava um trabalho de vencer a si mesmo e a Uniãofacilitando esse processo de autoconhecimento e assim percebeu que o caminho era mesmo “ baixar a bola “. Ouvia falar do Mestre Gabriel através do Mestre Mario, de forma muito carinhosa e respeitosa e lá na frente através do Mestre Paixão foi entender mais sobre a luz de Jesus que o Mestre Gabriel trazia.

Respondendo para uma criança porque mudou de religião, já que frequentava a igreja católica contou que foi coroinha por um bom tempo, até seus doze anos de idade, auxiliandoo padre a organizar as missas. Tinha um convívio muito próximo e frequentava muito a casa paroquial assistiatelevisão,joguinhos, coisas que atraiam crianças do interior. Certo dia aconteceu uma coisa que o fez afastar definitivamente da igreja , algo que preferiu não contar e não foi nada fácil decidir se afastar da igreja contrariando a sua família católica , buscando mais na frente outras formas de se aproximar de Deus até chegar a conhecer a União do Vegetal , onde se encontrou verdadeiramente .Seus pais aceitaram e sentiam que estava feliz dentro da União pois via que era uma busca. Já entendia as transformações do mundo de modo mais sereno.

O que mais tocava seu coração

A injustiça e o racismo o entristecia, pois, seus amigos eram os mais simples e isso era motivo de piadas de mau gosto por parte de pessoas preconceituosas.

Acontecimento marcante

Considera como um grande aprendizado,até os dias de hoje, o caminho da humildade e a limpeza do coraçãopara receber mais luz na vida e vencer a si mesmo, pois somos os nossos maiores inimigos, como ele afirmou.

E assim concluímos nossa entrevista, num clima de alegria e descontração e bons aprendizados de voltar numa época em que não existia tanta tecnologia e as crianças eram mais intuitivas e criativas. Aplausos, abraços e agradecimentos pela disponibilidade de nosso mano, antigo de casa, Paulo Piu .Após o término da entrevista, fomos presenteados por ele e pelos músicos presentes Fernando Guimarães e João Bá , que cantaram três músicas inclusive a que ele compôs  : O Sô Beco da Sá Mariquinha “ .  Passamos uma tarde muito valorosa e divertida, que emocionou a todos principalmente o nosso entrevistado que agradeceu muito pela oportunidade de contar a sua estória considerando importante para a posteridade.

Data – 18 de junho de 2016.

Hora – 15h10.

Duração – 1 hora.

Local – Núcleo Rainha das Águas, Caldas – MG

Realização – Orientação Espiritual do Núcleo Rainha das Águas (OE)

Equipe da OE:

Paulo Fernando Carvalho Junqueira – Mestre Representante

Cristiane Campos Bittencourt Junqueira – CDC – Responsável Nuclear

Auxiliares – Telma Yamashita ( CI )  , Ilza Emboaba ( CI )  , Tatiana Sulato ( CI)

Silvio Leossi( CI ) e Fabiano Sulato ( CI ) – auxiliares dos jovens

Filmagem e fotografias – Vivaldo Ribeiro (CI ) – auxiliar do DMD

Participantes:

Crianças: 0 a 5 anos: 3

5 a 11 anos: 7

12 a 14 anos: 2

14 a 18 anos: 1

Pais participantes: 12

Total de participantes: 32

 

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